Sinto falta da menina que brincava de bola e sentava na terra;
que andava descalça na lama só pelo prazer de vê-la escorregar pelos dedos;
Sinto falta das longas manhãs de domingo;
do cheiro do pó de serra da serraria do vizinho que servia de matéria-prima para os mais variados bolos confeitados com as flores do quintal da vovó;
Sinto falta do presentinho de papel noel;
também sinto falta da noite em que agarrei-me ao pranto por descobrir que ele não existe;
Sinto falta do barulho dos pés tocando o chão nas brincadeiras de elástico;
Da mamadeira de nescau que vovó me deu escondido dos meus pais até os 5 anos;
Sinto falta da jabuticaba doce e fresca e da siriguela dos galhos mais altos que só vovô conseguia tirar;
Sinto falta das brincadeiras de roda e das diversas paixões que eu dizia sentir;
Sinto falta de me arrumar para esperar meu pai chegar do trabalho e me abraçar daquele jeito, que só ele sabia fazer;
Eu até sinto falta de ouvi-lo ameaçar cortar minha língua e os dedos se eu os mostrasse pros outros;
Sinto uma baita falta de me esconder no guarda-roupa e ficar lá apertada, no escuro e sorrindo com mais três de mim de diferentes idades e cores;
Sinto muita, muita falta...
Mas o que mais aperta lá no fundo, é sentir falta de poder dizer que isso tudo um dia, vai acontecer novamente.
Luz.